Existe um rasto de silêncio pelas ruas desta cidade onde moro.

O meu corpo tece horas e nada se apaga como antes.

Onde estou, o frio é incessante e às minhas mãos queimam-se com as fotografias

como se o passado não existisse mais.

De hoje em diante, irei apagar-me em cada dia,

para que nada reste dentro de mim ou dentro desta vida vazia.

Por isso te vejo a desaparecer rapidamente, como o vento da minha voz, ao agredir-te sem que te doa ou marque para sempre.

E para que os dias passem, bebo-me de dentro das mãos.

Como um vinho púrpura que me corre no corpo

e assim a visão do mundo é mais carente - o frio que sinto é saudade.

Nada mais existe por aqui que me prenda ou que me faça ficar.

Visto a mala para pensar na partida, carrego-me pela porta até ao jardim que se estende lá fora, sem luz sem sol nem calor.

Os meus pés já não caminham porque não sabem.

Porque todas as cartas me ensinaram a chorar.

Por isso perco os sentidos nesta cidade sem polícia e sem refúgios

- como se fosse eu -a última a perder-me nas ruas labirínticas e planas onde o vento me espalha a memória como água em papel.
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Talvez, pelo avesso deste mundo deserto eu seja só um atalho fingido.
A cada passo sou apenas um fôlego cansado. Que desaprendeu como gemer.
Um novelo de sentimentos calejados que depois se guarda no canto escondido de uma gaveta sem uso. Porque realmente me magoam as esquinas inquietas.
Não estava escrito precisar de ti - assim - a cada instante.
Estaria contorcida se não pudesse mais dobrar as palavras.
Se não as tivesse por dentro de mim
– e se também numa impaciência não conseguisse soprá-las e torná-las mais leves
– nesta desordem pacífica. Ouço-me. o que você e mais ninguém pode ouvir.
E relembro com tristeza o pouco que rodopiei nos teus abraços, em sonhos talvez.
Não é que vá sarar a ferida agora. Afinal esqueço o rumo em cada letra que soletro a custo.
Porque contigo rompi as costuras da boca.
Há muito que me esmago com as coisas do mundo e não sabes.
Nada para me socorrer ou devolver o brilho aos meus olhos.
Mas aqueço as mãos sem me deixar derreter.
Não é que eu valha a pena: porque sou feita de aflições que me roubam as forças.
Lavo o sono com água gelada e – mesmo suspensa – vivo a cansar-me e cresço a tropeçar.
Sou desassossego. Mas não fraquejo diante de ti.
E passas por mim – de dentro para fora – sempre- sem me sentires na pele.
E eu afogo-me num batimento cardíaco avassalador.
Preparo-me para ser um sorriso espontâneo numa alma que morre aos pedaços.
Mas (eu) continuo a pagar – em prestações amortizadas – com estas dores abafadas e fundas. Não sei se temerei o teu rosto diante ao meu em dias futuros.
Porque repeti os gestos num calendário de folhas dobradas e esperei – em segredo – dias mais coloridos que anotei sem pensar a marcador fluorescente. Vivo sem me ver.
Talvez seja tempo de voltar atrás sem mágoa ou de seguir em frente sem medo
– de sufocar por dentro – de sacudir o corpo de uma só vez.
Aqui na minha casa a noite chega primeiro.
E eu não tenho vontades: estremeço na certeza de ter umas mãos tão frias.
Enquanto tento em vão o equilíbrio dou-me conta de um caminho ainda por decidir.
Mas distraí-me: enrolei-me em fios de promessas adiadas.
E sem querer trago-te comigo
– naquele bolso desobediente onde me cabem os sonhos – aconchegado no peito.


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Na realidade nunca te esqueço no dia a dia que te esquece.
Mas ficas um pouco ao lado, à espera de que eu volte de novo a olhar-te.
É uma imagem fluida e intensa, essa que se me ergue sempre,
e eu penso que possivelmente é a de quando te vi pela primeira vez.
Mesmo que não fosse a primeira e que estivesse então distraído o meu amor
que passava por ti.

Não há pessoas felizes.
Até porque grande parte das pessoas não compreendem a felicidade.
Não sabem a diferença de ser feliz e ser alegre.
Ou não concebem um elo com o sorriso.
Porque para elas o mundo tem apenas o sim e não.
Se as pessoas compreendessem a felicidade, saberiam a diferença entre amar e desamar. Saberiam que uma razão depende de outra razão.
e que nem tudo que nos é necessário nos é suficiente.
E por isso não existem pessoas felizes.
Porque a felicidade não existe enquanto fenómeno contínuo
e o vazio das nossas razões também não.
Somos felizes em momentos, discretos, ao longo da continuidade da nossa vida.
Quando descobrimos que amamos. Ou somos amados.
Quando parimos ideias, filhos, sonhos. Sem género.
Quando nos apaziguamos com o nosso passado.
Esse eixo que teimamos em construir ao lado esquerdo das nossas amarguras.
Somos felizes. Mas queremos acreditar que apenas estamos felizes.
Da mesma forma que não há pessoas infelizes.
Porque um ou mais momentos discretos de infelicidade não são condição suficiente
para as pessoas se tornarem infelizes em absoluto.
E é por isso que me fascinam as histórias tristes sobre pessoas.
Porque todos as temos.
Porque fazem parte dos eixos em que nos desdobramos.
Porque as teimamos em esconder, com medo que se olharmos muito para elas,
possamos descobrir a terrível verdade. Que afinal somos infelizes.
Mas isso, é tão falso, e isto sim é uma verdade absoluta.
Anke Merzbach

Gostaria que tivesse me conhecido mais cedo.
Quando pintava o meu cabelo de muitas cores e ainda não tinha tempo para desgostos de amor. Gostaria de te ter conhecido mais cedo e de não estranhar o silêncio
Gostaria de ter crescido contigo para não ter de ouvir de outra pessoa: as tuas qualidades. Gostaria de ter estado contigo quando a paixão não era mais do que imaginação nas nossas cabeças.
Gostaria de estar preparada quando te conheci. Porque aí os anos já teriam passado e – aparentemente – não haveria desculpa para a minha timidez e medo. Gostaria de continuar a fazer-te perguntas. Não me importo que já não queiras responder. Só quero que acenes e sorrias e digas mais uma vez: Estás tão bonita. Para eu voltar a acreditar.
Gostaria de não me sentir escorregar nos teus olhos.
Gostaria que todos os caminhos me levassem a ti, mesmo que a minha vontade seja avessa ao coração. Gostaria que me conhecesse antes dos livros e das músicas. Sem desilusões. Quando fugia de casa às escondidas e voltava muito tarde sem medo dos castigos. Gostaria que me conhecesse destemida. Que não me visse sem interesse como agora. Mas te encontrei fora do tempo. Sempre dentro de dores que nunca foram nossas. E – assim – perdoe-me, são apenas as dores acumuladas de outros tempos que pesam em mim.
Elena Getzieh

Quando um coração se fecha, faz muito mais barulho que uma porta.
António Lobo


em quantas gaiolas eu já estive presa?
de quais delas eu já me libertei?
e quantas mais eu criei?
em quais gaiolas estamos a procurar nossa cura, alimento e liberdade?

quando os dias desaguam no coração


eu me sinto exausta de correr com o coração à frente dos próprios passos.
me sinto esquecida à margem deste poema, e da vida.
carrego por dentro dos olhos o céu inteiro,
e é sempre rente à promessa de uma palavra de amor que encontro algum consolo,
mas dessas coisas apenas os meus olhos falam.


Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos,
resta-nos um último recurso:
não fazer mais nada.
Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que
havíamos solicitado, melhor será desistirmos e
procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram.
Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente,
mas nunca por força de imposição.
Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;
outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés.
Os sentimentos são sempre uma surpresa.
Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido.
Quase sempre amamos a quem nos ama mal,
e desprezamos quem melhor nos quer.
Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado,
resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer

Clarice Lispector


Toca-me. Peço-te que me toques.
Escuta este rumor dentro do meu peito,
esta palavra enlaçada a uma pedra que arde dentro da terra.
Toca-me. Ordeno que me toques.
Este rio que corre nos meus olhos,a música silenciosa que o vento vem entregar
quando os meus sonhos regressam do crepúsculo.
Vê como estou viva. Vê como sabe a terra das minhas palavras.
Vê como tenho ensanguentadas as minhas palavras perdidas,
esses desejos de tempestade que desnorteiam as aves.
Toca-me. Sente que venho da noite,
que é com angústia que chamo pelo teu nome,
sonho os teus sonhos,espero as tuas mãos.
Toca-me. Toca os fios de dor que me rasgam a boca.
Toca o fogo dos meus cabelos.
Toca-me, a escuridão em chamas do meu peito.