Perguntaram-me uma vez: como se estanca uma ferida?
Se ao menos eu soubesse a resposta.
Eu costumava escrevê-las, como num exorcismo,
tratá-las pelos nomes e relatar em detalhes cada gota de água salgada que teimava em escorregar para o chão,
Agora não consigo.
Gostava de ter um milagre nas mãos;
uma solução que dissolvesse esta dúvida inquieta, a minha e a dos outros.
Levanto-me de manhã, flutuo num rodopio de velhas rotinas:
o banho, o cabelo molhado à espera do vento,
o perfume de flores a deixar rastro pela casa,
o lápis preto nos olhos que poucos vêem
e o baton com cor discreta, nestes lábios tristes e apertados à força.
Gestos automáticos que nada têm a ver com este rosto cansado.
As horas arrastam-se e a chuva acumula-se também no canto dos olhos.
As chaves a rodarem numa porta fechada pra lá do espaço,
a gata que já nem se diverte, enroscada sem querer saber numa manta mais quente,
o casaco velho apertado até ao último botão para encobrir a pele.
O andar lento, que já sabe sempre onde ir,
e um som mecânico a descer comigo ao fundo de mim:
o tempo suficiente para espiar o espelho e tentar encontrar alguém com vida do outro lado.
Uns bons dias espremidos à saída de casa,
a rua e um sorriso roubado, e o café, e o sinal na esquina da rua, o trânsito.
Os meus passos cada vez mais vagarosos;
o frio a entrar sem pedir licença.
Já não sei onde carrego o peso destas dores sem dono.
O tempo tatuado nos dedos, os olhos sempre de encontro ao chão, o mesmo caminho.
Continuo a andar sem olhar para trás, perco-me em algumas janelas, paro de repente.
Finjo que não penso e o mundo entra por mim adentro.
Se me perguntassem agora como se estanca estas feridas
eu podia tentar a simpatia, ou a ternura.
Mas nestes olhos cavados que nada vêem já não encontro nada disso.
Sou um corpo que se arrasta em contratempo e que respira a muito custo.
Sou um sobressalto inesperado sem tempo nem vontade para nascer outra vez.
Queria recomeçar. Queria saber escrever-me num vazio.
Queria arredar este castigo que me mostra tamanha solidão.
Perguntam muitas vezes: como se estanca as feridas?
E eu a olhar lá pra fora.
Queria ver para além deste deserto em que se transformaram nos meus dias.
Sinto o negro dos olhos a escorrer-me cara abaixo.
E não há ferida que queira esconder mais que esta:
a moléstia a roer-me os ossos e eu – EU – a deixar.
O silêncio a consentir um delito: estou me matando,
subtraindo-me violentamente.
E fugi para parte incerta. de mim talvez.
Silvia




Primeiro foi o bule,
de seguida foi a asa.
Que mais irás quebrar?

Não sei o que fazer com o teu sim,
o teu não, o teu
passa-me o açúcar.

A distância dos teus olhos não a sei
abreviar, o latido dos teus sonhos
não me deixa adormecer.

Gostava de te amar um pouco menos,
de voltar ao meu rebanho
de feridas e sopores,
regressar ao rijo barro dos domingos
em que não te conhecia,
ao supor de suas tardes

quando ainda não sabia
da dureza do cimento, nem dos modos
de quebrar e ser quebrado.
José Miguel Silva


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Era da dor, do medo e do resto de tudo ao redor
que ela fazia música, sonhos e caminhos.
o que ficava das intactas noites sem poema,
do embaçar do sol do meio dia, da fome e de coisas guardadas sem finalidade .
Mesmo se ria, ou não, se em seus olhos míopes dançavam visões de um mundo inexistente,
era como se lançasse numa agonia, difusa, abstrata,
e ficasse febril diante de tanta realidade que não lhe pertencia,
ou de uma realidade de que não queria pertencer.
E, assim ela anotava tudo, nuvens soltas, farrapos de céu numa janela aberta,
escrevia cada segundo seu, com cuidado de eternizá-los em escrita precisa e leve;
com seus dedos suspensos numa partitura de solidão.
Dançava na poeira estelar das cores já desfeitas pelo tempo,
o tempo a desbotava, desgastava cada alegria sua.
mas, antes que o tempo pudesse arrancar dela o sentido de sua vida,
ela corria logo a buscar as coisas que anima o coração.
Silvia 2009

1ª página

Old Christmas Song

Na ausência que sinto de uma espiritualidade,
não só na descrença que possuo em relação às religiões e seus dogmas,
mas na ausência de um deus que traga um pouco de moralidade a este mundo,
crio laços com as palavras, para ir em encontro à minha subjetividade,
e descobrir caminhos que me façam descobrir um pouco de liberdade de ser eu mesma,
longe do que me é imposto, do que é encorajado e não efetivamente encontrado pelas pessoas.
tentar resolver minhas infelicidades, e não me sentir apenas mais uma pessoa jogada neste universo já moldado e absoluto.
aqui não me submeto,
aqui invento o meu verdadeiro, me permito, respeito-me.
não sou a mim mesma uma vítima imagem no espelho
sem recompensas, prêmios, palavras de elogio ou de censura.
aqui a minhas faltas e conquistas só dizem respeito a mim,
aqui estou segura na minha insignificância,
aqui posso fazer impunimente tudo que me agradar.
Silvia 2009