Não há pessoas felizes.
Até porque grande parte das pessoas não compreendem a felicidade.
Não sabem a diferença de ser feliz e ser alegre.
Ou não concebem um elo com o sorriso.
Porque para elas o mundo tem apenas o sim e não.
Se as pessoas compreendessem a felicidade, saberiam a diferença entre amar e desamar. Saberiam que uma razão depende de outra razão.
e que nem tudo que nos é necessário nos é suficiente.
E por isso não existem pessoas felizes.
Porque a felicidade não existe enquanto fenómeno contínuo
e o vazio das nossas razões também não.
Somos felizes em momentos, discretos, ao longo da continuidade da nossa vida.
Quando descobrimos que amamos. Ou somos amados.
Quando parimos ideias, filhos, sonhos. Sem género.
Quando nos apaziguamos com o nosso passado.
Esse eixo que teimamos em construir ao lado esquerdo das nossas amarguras.
Somos felizes. Mas queremos acreditar que apenas estamos felizes.
Da mesma forma que não há pessoas infelizes.
Porque um ou mais momentos discretos de infelicidade não são condição suficiente
para as pessoas se tornarem infelizes em absoluto.
E é por isso que me fascinam as histórias tristes sobre pessoas.
Porque todos as temos.
Porque fazem parte dos eixos em que nos desdobramos.
Porque as teimamos em esconder, com medo que se olharmos muito para elas,
possamos descobrir a terrível verdade. Que afinal somos infelizes.
Mas isso, é tão falso, e isto sim é uma verdade absoluta.
Anke Merzbach

Gostaria que tivesse me conhecido mais cedo.
Quando pintava o meu cabelo de muitas cores e ainda não tinha tempo para desgostos de amor. Gostaria de te ter conhecido mais cedo e de não estranhar o silêncio
Gostaria de ter crescido contigo para não ter de ouvir de outra pessoa: as tuas qualidades. Gostaria de ter estado contigo quando a paixão não era mais do que imaginação nas nossas cabeças.
Gostaria de estar preparada quando te conheci. Porque aí os anos já teriam passado e – aparentemente – não haveria desculpa para a minha timidez e medo. Gostaria de continuar a fazer-te perguntas. Não me importo que já não queiras responder. Só quero que acenes e sorrias e digas mais uma vez: Estás tão bonita. Para eu voltar a acreditar.
Gostaria de não me sentir escorregar nos teus olhos.
Gostaria que todos os caminhos me levassem a ti, mesmo que a minha vontade seja avessa ao coração. Gostaria que me conhecesse antes dos livros e das músicas. Sem desilusões. Quando fugia de casa às escondidas e voltava muito tarde sem medo dos castigos. Gostaria que me conhecesse destemida. Que não me visse sem interesse como agora. Mas te encontrei fora do tempo. Sempre dentro de dores que nunca foram nossas. E – assim – perdoe-me, são apenas as dores acumuladas de outros tempos que pesam em mim.
Elena Getzieh

Quando um coração se fecha, faz muito mais barulho que uma porta.
António Lobo


em quantas gaiolas eu já estive presa?
de quais delas eu já me libertei?
e quantas mais eu criei?
em quais gaiolas estamos a procurar nossa cura, alimento e liberdade?